DÉBORA DENADAI EM PROSA E VERSO

FAZER POESIA É LAVAR A ALMA FAZENDO SANGRIA...

Textos


O BODE NA SALA
 
          O bode na sala. A expressão é antiga, é clichê, mas muito usada porque define perfeitamente o incômodo. Todo mundo tem seu bode na sala. Bodes marrons, negros, brancos ou malhados. Não importa, todos cheiram mal, quebram tudo, fazem escândalos. E se amarrar o bode, pior. Gente com o bode amarrado (outra expressão interessante) ficam chatas, resmungonas e de mal com a vida.

          O bode que tenho na sala está solto. Deixo o dito cujo quebrar tudo se quiser, deixo ficar passeando de um lado para o outro, soltando seu característico “perfume”. Meu bode mora nas palavras que sei que existem, que definem. O bode é que não se encaixam no meu roteiro, no texto ou no que preciso dizer. É um bode imenso no meio da minha sala de estar. Deixo o bicho quieto lá até quando ele resolva se aquietar. Quem sabe assim as palavras não encontradas encontrem seu lugar.

          Infelizmente não é meu único caprino. Tenho um outro que mora na cozinha, mais escondidinho. As paixões que passaram por mim ( ou pelas quais passei, vai saber) e que já não tenho memória do que foram ou como aconteceram. Se é que aconteceram. Um bodezinho meio marrom como fotografia velha.

          No meu quarto, ocupando um lugar mais íntimo, o grande bode negro: as perguntas sem respostas, as respostas que não servem para perguntas que nem fiz. Fede. Incomoda pra caramba. Para este, não há salvação porque é rebelde e não vai embora. Este sim, um bode eterno. Por falta de opção, vou deixando os bodes por aí. Algum dia, boto todos pra correr. Ou vou quebrando o galho com algum perfumador de ambiente de indiferença. O bode pode até ficar na sala, mas eu é que não vou ficar de bode.
 

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Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 12/12/2014
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