DÉBORA DENADAI EM PROSA E VERSO

FAZER POESIA É LAVAR A ALMA FAZENDO SANGRIA...

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CARTA A UM JARDINEIRO
*escrita há muito tempo...mas gostei tanto que decidi publicar agora

Meu caro amigo jardineiro,

     Condenaste o canteiro de flores que criaste em torno de mim e regado por ti com muitas doses de amor e confiança, a um compulsório abandono. Lamentavelmente, tuas ferramentas estão agora ocupadas em outras lavras, mais importantes para ti neste momento que é absolutamente teu e onde eu, um dia importante, tornei-me não apenas desnecessária como uma espécie de erva-daninha a ser extirpada pela raiz.
     De todas as formas, ao abandonar este jardim que tu mesmo criaste, a sombra de flamboyants com os quais iluminaste em vermelho vivo meu canteiro de amores imperfeitos, esqueceste ou não pudeste, por absoluta falta de discernimento ocasional, de dizer-me se eu deveria continuar a cuidá-lo ou regar outras plantas e buscar novos sóis com outras cores em cantos outros distantes de ti. Educado que és, teus recados são sempre polidos ou absolutos silêncios que deixam bem claro que este jardim já não te interessa.
     Não nego que, a princípio, me magoaste com o abandono a que relegaste nossas plantas  e o descaso com que trataste as flores que cultivei para ti. Não nego que tua atitude me levou a elocubrações várias, muitas delas evidentemente plantando urtigas que queimaram e quase transformaram em pó uma trepadeira de flores enormes e plenas de confiança que alimentávamos com tanto carinho.
     Mas foste um bom jardineiro enquanto pudeste. E estás sendo agora, quando, relegando-me à condição de nada no teu jardim privado, estás me mostrando o caminho para um jardim particular, para o qual não preciso de jardineiro que o conserve, embora apresente-se eventualmente algum candidato. A vida segue seu curso e minhas flores permanecem abertas dentro de mim. Os flamboyants permanecem floridos, apesar da tua ausência e eu permaneço mais viva do que nunca. O teu jardim permanece intacto e porque não dizer, mais vivo, já que agora meu tempo é dedicado àquela pessoa que despertaste e a quem ensinaste-me a amar mais que tudo: eu própria.
     Tenho muito a te agradecer. No mais , só posso desejar que tua (s?) nova sementeira, ainda em processo de faxina do terreno e preparo dos canteiros venha a florir colorida como a que criaste  e me ajudaste a cultivar por um tempo. E , por que não? Compartilharmos, quem sabe, sem desperdício, tudo o que temos de possibilidade . Entre flores ou espinhos. Mas mais maduros e fortes. E mais coloridos. Infelizmente, para você, pelo que vejo, a única pessoa que realmente aprendeu a entender de flores e jardins, fui eu. Só me resta agradecer.
beijo carinhoso
de mim mesma, que dispensa apresentações.

www.deboradenadai.prosaeverso.net
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 19/05/2011
Alterado em 19/05/2011
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