DÉBORA DENADAI EM PROSA E VERSO

FAZER POESIA É LAVAR A ALMA FAZENDO SANGRIA...

Textos


CARTA A MEU PAI

Velho querido,
Só agora, depois de meses venho derramando minhas mil lágrimas a espera de que venha o milagre. Só agora tua ausência se faz uma constante presença e eu me dou conta de que dói...Dói como uma facada que atravessa o peito. Só agora me dei conta que como desacertei minha dança com tua música. De como me desencontrei de você enquanto você só tentava me ensinar a dançar conforme a música...Mas é que sou teimosa de nascença ,meu velho (e não me culpe, saí a você ).

As recordações aparecem cada dia mais nítidas. Entrei num filme que passa e repassa e te vejo nas broncas, nas discordâncias que nos faziam tão parecidos um com o outro e por isso mesmo de entendimento tão complicado. Te vejo na tua luta insana por ver teus filhos formados e donos dos seus narizes. Te vejo na sua tristeza por ver tua última ovelha, a negra da casa, indo contra os preceitos morais que pra você eram tão necessários e pra mim, tão inaceitáveis. E sinto falta de você. Sei que a cadeira onde você se acomodava pra ver TV não terá mais você lá quando eu volte pra casa... sim, porque aquela continua sendo minha casa. Sei que não vou ver mais seus ataques de ciúme porque fica todo mundo pendurado na tua velha companheira de guerra na educação dos teus filhotes...Sei que você não vai estar mais lá, mas no meu filme particular continuo te vendo cheio de razoes e das certezas que tanto me incomodavam...

Velho, sei que não fui exatamente um modelo de filha, que nunca fui obediente e nem muito modelo de tudo que você gostaria que eu fosse ...mas o pior é saber que, por ter sido educada para respeitar e praticamente temer os pais, nunca te disse quanto te amava. E agora que você não está, fica essa coisa entalada na garganta, esse querer que eu nunca manifestei, esse vento encanado que me congela o coração e esse choro que só agora consegue sair.

Nos pegamos tanto nas discordâncias,  uma coisa é líquida e certa: você nos amou , da tua maneira meio torta e as vezes incompreensível, mas nos amou e eu , velho, da minha maneira desastrada, sigo te amando. Te amo na minha falha em nunca lhe ter dito isso, te amo na minha distancia geográfica e agora forcada e te amo nas minhas lágrimas que esperam um milagre...o milagre de estar do teu lado, porque sei que a coisa não termina aqui , velho querido.

Só posso te prometer que mesmo meio torta vou seguir peleando com a vida pra fazer a coisa certa, mesmo quando erro, porque foi assim que aprendi com você .
 
Agora, vou ter que ir,meu velho, porque a guerra é longa e eu ainda estou em uma de muitas batalhas. Leva contigo esse amor que não declarei e a saudade que algum dia se transformará na felicidade de ter tido um pai que sempre se orgulhou de seus filhos mesmo se fazendo de duro, mas que no fundo era puro amor. Leva contigo o orgulho de saber que, não importa quantos erros tenham sido cometidos, você terminou acertando o passo dessa tua filha, ainda que nos últimos minutos do segundo tempo.

Bola pra frente, treinador. Esse jogo não terminou. Ainda.

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Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 12/06/2010
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